Os Possessos
Baseado na obra de Dostoievski
Inspirado na versão de Albert Camus
Com adaptação, dramaturgia e direção de Antonio Abujamra, cenários e figurinos de Cyro Del Nero, luz de Wagner Freire, preparação corporal de Mariana Muniz, música de Marcello Amalfi, produção de João Roberto Simões, a peça Os Possessos, baseado no romance Os Demônios, de Dostoiévski, é uma das melhores peças que assisti nos últimos tempos.
A direção precisa de Abujamra, a dedicação de todo o elenco formado por 29 atores, além de profissionais nas áreas de direção, produção, cenografia, iluminação e música, em um total de 55 bolsistas de várias regiões do Brasil, resultou em um belíssimo espetáculo cujo texto se passa na Rússia do século 19 e trata da miséria e da injustiça que fomenta uma classe de homens insatisfeitos com o regime a tomar o poder e instaurar, mesmo através do terror, um novo modelo de governo, prenúncio de uma revolução que aconteceu de fato na Rússia, em 1917.
As mazelas humanas, suas taras e sede pelo poder vêm à tona de forma irônica e cruel, ilustrando uma realidade que infelizmente não se perdeu nos séculos passados, mas antes, atordoam-nos a cada noticiário.
Local: Sala Guiomar Novaes
Endereço: Alameda Nothmann, 1058, Campos Elíseos
São Paulo (SP)Telefone: (11) 3662-5177Capacidade: 140 lugares
Entrada Franca
Censura: livre
Temporada: às quintas, sextas e sábados, às 20h, e domingo, às 18h, até final de agosto.
Fonte: site da Funarte
http://www.funarte.gov.br/novafunarte/funarte/noticia.csp?NoticiaId=689&CSPCHD=000100020001419flefo002370695178
Trilogia Travessia - Três Passos em Direção ao Butô
Grupo Teatro Ritual
Elenco: Nando Rocha e Pablo Angelino
Quartas, 21h : A Partida
Quintas, 21h : De Tão Longe Venho
Temporada: 9 a 31 de julho.
Teatro Coletivo Fábrica- endereço abaixo
O Teatro Ritual é um grupo de pesquisa da Arte de Ator que vem estudando e praticando diversas linguagens cênicas como a mímica, o palhaço (clown), a commedia del’arte, as danças populares brasileiras, a dança butoh japonesa e o teatro físico de maneira ampla. (informações presentes no site: http://www.teatroritual.com.br/) Vindos de Goiânia para curta temporada em São Paulo, ainda promoveram a oficina " Corpo Ritual" da qual tive o prazer em participar, comprovando o talento dos adoráveis integrantes e a seriedade da pesquisa.
Imperdível prestigiar o trabalho desse grupo goiano!
Hagoromo, o Manto de Plumas
Coreografia e interpretação: Emilie Sugai
Direção: Fabio Mazzoni
Sábados, 21hs30 e Domingos, 20h.
Temporada: 5, 6, 12, 13, 19, 20, 26 e 27 de julho.
Hagoromo, O Manto de Plumas
No mesmo teatro que a Travessia, Harogomo é um espetáculo que desafia nosso olhar ocidental a se acostumar com a pouca luz, com o tempo dos acontecimentos da história, só para nos deslumbrar com a beleza da encenação, com a qualidade da interpretação de Emilie e a poesia que invade nossa alma ao nos entregarmos à penumbra que conduz certamente a outra dimensão!
Endereço: Teatro Coletivo Fábrica
Rua da Consolação, 1623Consolação - Centro - 3255-5922
Estacionamento: para frequentadores do Teatro: R$ 10,00 (carimbar na bilheteria)
R. Pedro Taques, 54
Site:http://www.fabricasaopaulo.com.br/
domingo, 13 de julho de 2008
Espetáculos imperdíveis em SP
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domingo, 29 de junho de 2008
Moradores de rua: reflexões após um sarau.
Ontem estive no 6° Sarau do Gato, organizado pela Cia Meses, um jovem grupo de teatro, oriundo de um trabalho da prefeitura chamado Vocacional. (ver: http://ciamesesdeteatro.blogspot.com/)
Na unidade do AprendizComgás, sugestivamente localizada numa rua que se chama Alegria, no Brás, uma roda aberta para quem quisesse se expressar (o tema era: O que eu quero dizer pro mundo) contou com poesias, música, no melhor estilo banquinho e violão; dança e performances.
Particularmente um tema me tocou. Dois rappers , F.L. e MC Mascote declamaram a letra de uma música que estavam fazendo, pedindo a opinião da audiência sobre o conteúdo e clareza da mensagem. A letra trata do incômodo provocado em F.L. ao passar pelo centro da cidade e ver tantos moradores de rua jogados pelo chão. E propõe um questionamento, assim como Mascote, sobre como devemos lidar com isso.
Coincidentemente, havia acompanhado há poucas semanas o trabalho de final de curso do fotógrafo Fabio Reginato (que também é meu namorado) sobre o mesmo assunto. As fotos que ilustram este post são dele.
A discussão no Sarau rendeu profícuas reflexões, levando em conta o desconforto geral das pessoas sobre o tema. Que aliás não é só um tema, mas uma realidade que aumenta a cada dia no número de pessoas em situação de rua.
Como agir, perante essa população crescente que, jogada na rua, misturada à cor do cimento, se mimetiza numa paisagem de sujeira e concreto, [1] muitas vezes alcoolizada e sempre fedida, sem ser com o embrutecimento do dia-a-dia que faz ignorar, passar reto e desviar desses “F
antasmas Urbanos”, como o título do trabalho do Fábio nomeia? [2] Entendo que o termo “fantasma” implica em algo que você , ou é cético e não acredita que exista, e por isso mesmo não enxerga, ou sabe que existe, teme, porém não vê, caracterizando seres de uma dimensão paralela que tornam-se “invisíveis” para muita gente. Oras, eu só existo se sou visto por você e você só existe se é visto por mim... (quanto a isso, conferir a Fenomenologia da Percepção, de Merleau-Ponty).
Também há o aspecto de “avesso”, repugnância por tudo o que achamos mais baixo e vil da condição humana: comer do lixo, dormir na sarjeta, por exemplo, são retratos de perda da dignidade e total derrota perante a vida.
O que fazer para mudar o destino de tantas pessoas, que, sem querer ser assistencialista, precisam de ajuda? Uma das reflexões no Sarau propôs: o que eles querem que seja feito?
Os albergues são paliativos, do meu ponto de vista. Recursos de abrigo, alimentação e higiene são colocados à disposição dos moradores de rua por um tempo, “dando uma geral” no indivíduo para devolvê-lo pra rua, um pouco mais limpo e alimentado, até que ele volte para uma nova estadia . E se estabelece um ciclo, que tem sua importância, mas somente mantém o status quo da situação.
Falamos da questões psicológicas, atendimento também oferecido nos albergues, visando um resgate da auto-estima e valoração da vida para pessoas que perderam o vínculo com a sociedade, vivendo praticamente penduradas na crueldade do sistema que não oferece nem saúde, nem educação, nem emprego para todos.
Ainda discutimos a participação humanitária de cada um, dando atenção quando algum morador de rua se dirige a você. Acho que todos temos histórias de conversas bacanas com mendigos. Eu mesma já passei por discussões filosóficas, políticas, sobre segurança nas ruas além de receber várias bênçãos e conselhos de moradores de rua com quem tive a oportunidade de conversar. O último com quem conversei, instalado à porta de um dos lugares no qual trabalho, me disse que eu estava trabalhando muito e devia descansar mais... 
O que leva essas pessoas a estarem nas ruas, escolha por se retirar da sociedade, valores abandonados, dignidade, valoração do trabalho, estruturas social, familiar, humana, formas de exclusão social, alcoolismo, drogas, grana, migração, crianças viciadas em crack, responsabilidade do governo, terceiro setor, foram ainda, questões tangidas no debate e muito mais abrangentes e profundas do que uma tarde (ou um post) pode dar conta.
Sabemos que os processos de conformação social nas metrópoles são excludentes e cruéis, gerando segregação e discriminação. A margem da sociedade é a borda que emoldura os frutos da sociedade em questão.
Conversando com meu namorado quando cheguei do Sarau, falamos sobre a reinserção por meio do que configura-se como uma terapia ocupacional, ensinar artes, artesanato (que inclusive pode ser vendido,) fazer oficinas teatrais, para mantê-los ocupados e longe do álcool, por exemplo. Atrás dessa informação, para saber se já havia algo parecido, segundo a diretora Vera, do LAC (endereço abaixo) as iniciativas nesse sentido são escassas apesar de muito bem-vindas . Chego à conclusão de que, se queremos fazer algo realmente para mudar, nada como oferecer algum trabalho voluntário, doando nossos maiores talentos para interferir em uma realidade.
Esta é uma discussão que não tem fim, mas deve caminhar na busca de solução, no que tange ao macro e micro-social, uma vez que os nossos horrores mais íntimos estão refletidos em um espelho às avessas em cada esquina dessa megalópole que é São Paulo. E não adianta fingir que não os vemos, pois essas “assombrações” só tendem a se transformar em pesadelos cada vez mais reais.
Bibliografia sobre o tema:
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio, Cidade de Muros, trad. Frank de Oliveira e Henrique monteiro. São Paulo, Ed. 34/Edusp, 2000.
CHIAVERINI, Tomás, Cama de cimento. Rio de janeiro, Ediouro, 2007.
GIORGETTI, Camila, Moradores de rua: uma questão social? São Paulo: Fapesp, Educ, 2006.
Algumas ações sociais:
Turma da sopa: Distribuição de sopa para moradores de rua. Já trabalhei como voluntária lá. É um trabalho sério e estruturado. Mais informações: http://www.turmadasopa.org.br/novo/quem.asp
LAC - Lar do Alvorecer Cristão, conveniado à Prefeitura, aceita contribuições em dinheiro e doações de roupas e alimentos de pessoas físicas e jurídicas. Atende mulheres e crianças.
R. Cláudio Soares, 144, Pinheiros. Tel: 3098-0517
COR – R. Cardeal Arcoverde, 3041. Atendimento à população masculina , serve café da manhã, almoço e jantar.
[1] Helena Katz, Professora , pesquisadora e crítica de Dança, escreveu recentemente sobre esse mimetismo em outro contexto: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080618/not_imp191389,0.php
[2] No trabalho, Fábio Reginato destaca com cores os moradores da paisagem urbana. Essa colorização que ele atribui às pessoas, tem reciprocidade na proposta de grafiteiros, estes agindo sobre a paisagem, como Dhario Sossa, que colorindo, desenhando sobre os muros da cidade, salienta o relevo cinza do corpo no chão, antes confundido com o concreto.
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domingo, 22 de junho de 2008
Danças Circulares em SP
“ Ó homem, ó mulher, aprenda a dançar, senão os anjos no céu não saberão o que fazer contigo.”
Santo Agostinho 354-430 d.C.
A dança existe desde os primórdios da civilização. Dançar sempre foi forma de relacionar-se com os deuses e com a natureza. Nas rodas de dança em torno das fogueiras, o homem imitava o movimento circular dos astros e promovia a harmonia entre o céu e a terra. A dança como ato sagrado era usada como ritual em torno daquilo que se pretendia alcançar desde a pacificação de animais selvagens até a cura de doenças. A dança extrapola a linguagem, sai da órbita da imanência (aquilo que existe) em direção à transcendência (aquilo que vai além).
O círculo, por sua vez, significa união, aliança, ausência de distinção ou de divisão...
Segundo compilação de textos da Professora Vaneri de Oliveira:
“As Danças Circulares representam uma retomada de antigas formas de expressão de diferentes povos e culturas, acrescidas de novas criações, coreografias, ritmos e significações próprias do homem inserido na realidade atual.
Uma vez que a maioria dessas danças está ligada à história dos povos, trazem, na sua essência, a qualidade de estimular a socialização e de resgatar o caráter lúdico participativo, incluindo todos os indivíduos, sem distinção ou hierarquia.
Os diversos ritmos e passos experimentados possibilitam uma ampliação no repertório de cada participante. Compartilhando-os com o grupo, cria-se uma linguagem particular que se estabelece com a dança e que vai sendo decifrada e assimilada por cada indivíduo à sua maneira.
Ao dançar em roda , o indivíduo coloca-se em contato com o seu corpo em movimento, com o seu ser em expressão e com o grupo, estabelecendo e transformando suas relações sociais. É um instrumento para a ampliação da consciência individual e grupal.
Em uma estrutura circular, todos os pontos giram em torno de um centro e estão à mesma distância dele, fato que confere a esse símbolo qualidades de igualdade e de unidade.
Da mesma forma, dançar em círculo nivela todos os indivíduos, eliminando a hierarquia e permitindo que, através do olhar, todos se reconheçam como participantes igualmente valiosos da configuração.
Não há a expressão de um ego em particular. Sintonizada com a proposta aquariana, a ação e notoriedade do feito se dá através do grupo.
O movimento cadenciado, o ritmo e a participação de cada um na harmonia grupal fazem com que o círculo seja vivenciado com símbolo vivo e pulsante.
Quando dançamos não é só o corpo físico que se torna mais leve, ágil e alegre, mas também a alma, pois da mesma forma que nos tornamos mais flexíveis nossas articulações , por correspondência, também o fazemos com nossas reflexões.”
Há em São Paulo programas de danças circulares por todos os parques da cidade. A cada domingo do mês, um parque recebe focalizadores (como são chamados os instrutores dessa prática) a fim de reunir pessoas dispostas a dançar em círculo.
Uma verdadeira celebração para não fazer feio com os anjos no céu!
Danças Circulares e da Paz Universal2008
Parque da LuzTodo 2º domingo de cada mês das 10:00 às 11:30hatrás do coreto sob as Figueiras- entrada franca
Informações:
Arlenice Juliani - (11) 5581-3908 / 9725-7649Mônica Goberstein (11) 2934-0207Vaneri de Oliveira (11) 6346-5981 / 9753-4815
Dançando Variedades - Coreografias Próprias com Vaneri de Oliveira 26 de julho de 2008 das 9:00 às 19:00h
Ser em Cena. Rua Henrique Bernardelli 93 B (próximo ao metrô Santana) São Paulo – SP- tel:2973 0848
Triom
http://www.triom.com.br/
Parque do Ibirapuera– 1º domingo – 10h00 – próximo ao Viveiro Manequinho LopesAv. IV Centenário, s/nº, Portão 7A
Parque da Luz– 2º domingo – 10h00 – atrás dos coretosPraça da Luz s/nº – Bom Retiro
Parque Trianon (Tenente Siqueira Campos)– 3º domingo – 10h00 – ao lado do playgroundRua Peixoto Gomide, 949 – Cerqueira César
Parque Villa Lobos– 4º domingo – 10h00 – à esquerda da entrada principal
Parque da Aclimação– Último sábado – 10h00 – próximo à Administração
Parque da Água Branca (Fernando Costa)– Último domingo – 11h00 – no Bambuzal
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domingo, 15 de junho de 2008
É tempo de arraial!
Domingão de junho em Sampa. Com dúvidas sobre o que escrever, não fugi do óbvio que era falar sobre as festas juninas. Lembro da adolescência com pontas de saudades das histórias vividas em festas do Clube Espéria, Clube dos Oficiais e do Instituto Madre Mazzarello, entre outras tradicionais da Zona Norte de São Paulo.E da minha mãe, fazendo pipoca, bolo de milho, pinhão, um cuzcuz maravilhoso, quentão e vinho quente, bem docinho e com muitas frutas...Tradição mantida até hoje, quando, alegremente, dou com uma festa junina dedicada ao neto, rolando na casa dela!
Tentei lembrar do que mais gostava naquelas festas e acho que era encontrar os conhecidos, pessoas com quem convivia em ambientes como colégio e clubes, num dia de festa, com família e amigos...Além das comidinhas típicas, sempre tentadoras e suculentas para uma gulosa como eu!
Arraial do Samba da Vela
Tradicional roda de samba comemorando São João.
Dia 25/06, a partir das 20h.
Praça Francisco Ferreira Lopes, 434, Santo Amaro. (11) 5522-8897
Entrada Gratuita, porém aceitam doações voluntárias de R$ 2,00 para produção de sopas
Arraial na Monte Azul
Nessa ONG acontece a festa tradicional, com comidinhas e brincadeiras típicas.
Dia 23 de junho, das 14h às 22h
Associação Comunitária Monte Azul. Av. Tomás de Souza, 552 - Jd. Monte Azul (11) 5851-5370 ou fax (11) 5851-1089
Entrada Gratuita.
Zona oeste
Festa Junina do Clube Pinheiros
Já tradicional, a Festa Junina do Clube Pinheiros durará 4 dias. Oferece barracas de comida, jogos e shows.
26 de junho das18h30 à 1h30
27 de junho das19 às 2h
28 de junho das 11h30 às 2h
29 de junho das 11h30 às 20h30
Clube Pinheiros: R. Tucumã, 600, (11) 3598-9700.
Ingressos de R$ 20 a R$ 35.
Programação completa: Clube Pinheiros
Centro
Paróquia Nossa Senhora da Consolação
A festa oferece barracas de comida típicas, jogos e quadrilha das crianças da catequese da Igreja. De 7 a 29 de junho, sábados e domingos, a partir das 18h.
R. da Consolação, 585, tel: (11) 3256-5356.
Grátis.
Zona Norte
Playcenter
Balada caipira no parque de diversões.
Finais de semana, até dia 03/07, a partir das 17h
Entrada: R$ 24,00
Clube Juventus.
Shows e muita animação.
Sábados e domingos até 03/07
R. Comendador Roberto Ugolini, 20, 6165 6555
Entrada: R$10,00 a R$15,00
As festas dos SESCs também costumam ser bem animadas e com intervenções culturais sobre o tema. Veja a programação: Sesc SP

BOLO DE MILHO: 1 lata de milho verde escorrida, 100g de manteiga, 1 copo grande de fubá; 3 ovos; 1 vidro pequeno de leite de coco; 1 colher de sopa de fermento em pó; 2 xícaras de chá de açúcar. Misture tudo e bata no liquidificador, acrescentando o fermento por último. Despeje em uma forma untada e leve ao forno médio por cerca de 30 min.
(peguei daqui: Bussola Net)
Outra receita que me deu água na boca, com queijo meia cura, no link: Receitas
Fonte das figuras que ilustram esta matéria: Desvendar e Sesc SP
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domingo, 8 de junho de 2008
DONOS DA RUA
Há tempos minha irmã, Clarissa, me convida para escrever alguma coisa por aqui... A falta do mesmo, no entanto sempre me impediu. Vontade não faltava, e eis que não resisti ao último convite: ocupar os domingos do blog, postando sobre os acontecimentos na e da jungle São Paulo.
E conto, logo de cara sobre um ciclo de palestras que aconteceu no final de maio e começo de junho no Teatro Commune (R. da Consolação, 1218). O tema foi TeatroCidade, e discutimos entre outras coisas o USO DA RUA PELO TEATRO.
Nessa mesa, que aconteceu dia 30 de maio, contamos com a participação de Nabil Bonduik (Urbanista e arquiteto), Raquel Rolnick (Pesquisadora e Arquiteta), Adailton Alves (movimento de teatro de Rua de SP) e Augusto Marin (Diretor do Teatro Commune) como mediador.
Transcrevo, inicialmente, minhas anotações sobre a fala da Raquel, que é também Relatora do Direito à Moradia pela ONU, e fez um levantamento pontual sobre a mudança do uso da rua em São Paulo através dos séculos, considerando que, até meados do século XlX, esta megalópole não passava de uma vilinha singela, sem grandes pretensões econômicas na história do Brasil. A rua era, então, lugar de trabalho, com negócios na calçada e de encontros. Ah, e um espaço predominantemente masculino, já que às mulheres (ditas) de família cabia transitar apenas em procissões. Serviçais eram vistas em feiras e no comércio das praças, durante o dia, é claro. Já as “outras” (nem de família nem empregadas) saíam quando queriam...
Cabe ressaltar que as praças, além de pontos de venda, eram centros de manifestações artísticas, bem ao estilo mambembe, subindo em caixotes e fazendo malabarismos ou cantando e atuando.
Porém, por volta de 1870, ou seja, final do século XlX, com o ciclo do café, tudo mudou e São Paulo passou a ser rota e passagem, trazendo grande movimento à pequena vila.
A transformação da cidade deu-se de forma acelerada, tendo como marco a instalação da ferrovia e dos circuitos de bonde, imprimindo, desde lá uma característica que vai se tornar o maior paradoxo no futuro: a velocidade.
Ainda assim, até os anos trinta do século XX, havia muita circulação a pé e comércio na rua. Pois não é que a briga com os camelôs começou aí?! Veio uma proibição do governo, (lembremos que estávamos em plena era do Getúlio) impedindo as pessoas de estar/parar na rua...
E se configurou cada vez mais a função da passagem, do estar em trânsito, de um ponto a outro sem paradas pra um bate-papo com o transeunte que vinha em sentido oposto.
Como a questão sempre foi produtividade, diminuir o tempo de deslocamento e aumentar a velocidade foi a função dos automóveis que logo dominaram as ruas, além dos caminhões, encarregados de escoar toda a produção pelo país.
Consolidou-se assim a produção de uma cidade de passagem, condenada a estar em trânsito ininterrupto.
E seu maior paradoxo, mencionado no início do texto, afinal, foi criada uma paralisia pela vontade de velocidade, vide as vias congestionadas e o tempo perdido em/no trânsito.
Raquel colocou, então, como uma saída, o teatro como instrumento de ressignificação do espaço público, exemplificando com o ocorrido em Bogotá, onde, através de intervenções artísticas, houve uma reconquista do espaço público. Operou-se, além da reurbanização e melhorias no transporte público, uma ação com 800 atores em figuras clownescas, permanentemente nas ruas, que, por exemplo, “choravam” para o motorista que parava em local proibido, lamentando tamanha desinformação...
Essa foi uma das estratégias de mudança da relação dos motoristas com o espaço público, utilizando o Teatro em serviço de uma nova configuração urbana, que por sinal, foi muito bem sucedida.
Adaílton Alves trouxe imagens da 2ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas, mostrando a capacidade do teatro de mobilizar o espaço e o tempo ao seu redor, interferindo culturalmente no seu entorno e criando uma possibilidade de transgressão do sistema e ressignificação do espaço público. Além de selecionar uma bibliografia preciosa sobre o Teatro de Rua, embora escassa como ele mesmo salientou, já que são poucas as publicações sobre o assunto.
Nabil Bonduiki, que já foi vereador pela cidade e participou do Movimento Arte contra a Barbárie, da criação do Fomento e do Vai, planos de incentivo à cultura, acredita que o repovoamento da rua deve ser visto como política de segurança, já que ao ocuparmos a cidade e não somente passarmos por ela, estabelecemos vínculos de pertencimento e patrimônio, e sugere a arte pública em intervenções, ocupações e interferências nesse caminho de reapropriação.
Eu, como atriz e educadora, vejo nessas propostas um caminho de re-humanização das relações, ao possibilitar a assimilação da convivência mais reflexiva, com tempo para parar e olhar uma manifestação, deslocar o indivíduo da necessidade de “estar produzindo”para a vontade de estar ali, simplesmente desfrutando de um acontecimento que o irmana no riso e na “abolição entre produtores e receptores”(Adaílton Alves), já que na rua, simplesmente não existe essa separação!
Fecho com uma frase de J. Caiafa, trazida pelo Adaílton, que diz: “Para a arte e o pensamento, é preciso um tempo de ressonância”, portanto, quanto antes usarmos a arte para mobilizar o espaço-tempo em que vivemos, antes se darão as mudanças que tanto aspiramos.
Postado por Leticia Olivares às 11:52 AM 2 comentários